Durante anos, o setor da construção habituou-se a soluções baratas, rápidas e aparentemente eficientes. O sistema ETICS (External Thermal Insulation Composite System) aplicado na maioria dos edifícios como resposta às exigências térmicas tornou-se o processo de isolamento mais comum, e bem. Mas a questão que se impõe já não é apenas se isola bem, mas sim a que custo ambiental, social e de saúde? E a resposta nem sempre é confortável.
Grande parte dos sistemas ETICS utilizados comumente, recorre a materiais derivados do petróleo, como o poliestireno expandido (EPS) e/ou extrudido (XPS). São, de facto, soluções eficazes do ponto de vista térmico, mas cuja pegada ambiental, comportamento ao fogo e impacto no seu fim de vida levantam questões que raramente entram na equação. E quando entram, são muitas vezes diluídas num discurso de sustentabilidade superficial, ou, em muitos casos, francamente enganador.
É aqui que o aglomerado de cortiça expandida surge não apenas como alternativa, mas como um verdadeiro ponto de rutura. Trata-se de um material com origem no montado de sobro, sendo Portugal o país que mais o representa. Além da sua produção ser nacional, é um material 100% natural, renovável e com pegada de carbono negativa. A cortiça não exige abate de árvores, promove a biodiversidade e tem a capacidade de sequestrar carbono ao longo do seu ciclo de vida. Ao contrário dos materiais sintéticos, não depende de cadeias industriais intensivas em energia fóssil, nem de processos que levantam dúvidas ambientais difíceis de justificar à luz dos desafios climáticos atuais.
Num país onde se passa muito frio dentro de casa e onde (pelo contrário) as casas são excessivamente quentes no verão, a necessidade de edifícios devidamente isolados é cada vez mais evidente, e a capacidade de um material responder não apenas ao frio, mas também ao calor, torna-se essencial. A cortiça é não só um excelente isolamento térmico e acústico, como pela sua inércia térmica, permite amortecer as variações de temperatura e melhorar significativamente o conforto térmico, algo que muitos sistemas convencionais simplesmente não conseguem fazer.
Ao mesmo tempo, trata-se de um material que “respira”. Permite a difusão do vapor de água, reduzindo o risco de condensações e contribuindo para ambientes interiores mais saudáveis. Num contexto em que passamos a maior parte do tempo dentro de edifícios, esta dimensão deveria ser central, mas raramente é. E há ainda uma questão de durabilidade. A cortiça mantém as suas propriedades ao longo do tempo, sem deformações, sem perda de desempenho e sem necessidade de substituições prematuras. Não é descartável. Não é efémera. E isso, num setor onde o ciclo de vida dos materiais é frequentemente ignorado, deveria pesar mais na decisão. Então porque não é esta a solução dominante? A resposta é simples e incómoda. Porque o mercado ainda privilegia o custo imediato em detrimento do valor a longo prazo. Porque a informação disponível nem sempre é clara ou isenta. E porque o discurso da sustentabilidade foi, em muitos casos, capturado por estratégias de marketing que pouco têm a ver com a realidade. A construção sustentável não pode continuar a ser uma narrativa conveniente. Tem de ser uma prática fundamentada, verificável e coerente.
Num momento em que a pressão regulatória europeia, da Taxonomia aos novos requisitos de reporte, exige maior transparência, a escolha dos materiais deixa de ser um detalhe técnico para passar a ser uma decisão estratégica. Optar por um sistema ETICS em cortiça não é apenas melhorar o desempenho de um edifício. É alinhar a construção com uma lógica de responsabilidade, de coerência e de compromisso com o futuro. E, talvez mais importante, é provar que é possível fazer melhor quando se escolhe com consciência.
2026.04.16
Aline Guerreiro, Fundadora e Coordenadora do PCS
